Congresso Catarinense de Obstetrícia e Ginecologia

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Dados do Trabalho


Título

“Suspeição de Sífilis Congênita em Paciente com suspeita de maus tratos”

Introdução

Introdução
Sífilis congênita (SC) é uma infecção causada pelo Treponema pallidum,
adquirida por via transplacentária em qualquer período gestacional ou no parto. A
doença pode atingir múltiplos sistemas, com sinais precoces e/ou tardios1,2. Os achados
clínicos em pacientes com diagnóstico desconhecido de SC podem levar a interpretação
equivocada. Lesões que frequentemente levam crianças à emergência com história
contraditória ou discordante podem induzir a suspeição de maus tratos3,4. Em uma
situação em que há tal suspeita, faz-se importante a investigação e exclusão de doenças
que compõem possíveis diagnósticos diferenciais3,4. Assim, este estudo tem por objetivo
apresentar um caso de sífilis congênita que, por desconhecimento do diagnóstico de
base associado a uma história de atendimentos repetidos por seguidas fraturas sem
relato de traumas e com anamnese discordante, foi conduzido inicialmente com a
possibilidade de suspeita de maus tratos.

Material e Método

Estudo retrospectivo do tipo relato de caso. Submetido e Aprovado pelo Comitê de ética e Pesquisa da Instituição sob o parecer número 4.924.150.

Resultados

Relato de Caso
Lactente, masculino, 2 meses e 18 dias, comparece ao setor de emergência
acompanhado por sua responsável que relata choro e dificuldade de mobilização de
MSD. Negou história de trauma e ao exame físico, apresentava dor à mobilização de
punho D. Radiografia demonstrou fratura ulnar distal D. A responsável foi questionada
sobre o mecanismo de trauma e não soube explicar. Realizou-se imobilização com
gesso axilopalmar à D. Após dois dias, compareceu novamente, relatando aumento de
volume no MSE. Novamente negou história de trauma e não soube explicar o ocorrido.
Ao exame físico, presença de edema e dor à palpação. Nova radiografia apresentando
fratura ulnar distal E. O MSE também foi imobilizado. Com relato discordante, foi
aventada a possibilidade de maus tratos/negligência. Agendou-se consulta ambulatorial
em dois dias, a qual não compareceu. Prontamente, a equipe realizou busca ativa e, no
dia seguinte, o paciente foi conduzido acompanhado pela responsável à consulta para
reavaliação. Na investigação, verificou-se histórico de sífilis na gestação, com
tratamento adequado e comprovado. No momento do parto, mãe com Venereal Disease
Research Laboratory (VDRL) de 1:16 (queda de 4 diluições em relação ao final de
tratamento) e RN com VDRL de 1:16. Com 2 meses de vida, o paciente apresentou
VDRL de 1:4. Paciente foi internado para investigação com infectologia e ortopedia, em
que se notou criança gemente à manipulação, MMSS imobilizados, peso abaixo do Z
escore -3 para idade, fontanela anterior fechada, lesões papulares e eritematosas em
região cervical anterior e em região de fraldas e congestão nasal. Lesões oftalmológicas
foram descartadas. Radiografia de ossos longos demonstraram periostite de úmero E,
fratura de ulnas distais, imagem lítica na região metafisária distal de tíbia, reação
periosteal difusa em tíbia e fíbula bilateralmente. Exames laboratoriais demonstravam
anemia com alterações na série vermelha, leucocitose, plaquetopenia, provas
inflamatórias elevadas, fosfatase alcalina elevada e VDRL de 1:512. Líquor cristalino
com VDRL negativo, com demais parâmetros dentro da normalidade. A mãe foi testada
com VDRL de 1:128. Iniciou-se tratamento com penicilina cristalina endovenosa com
boa evolução clínica e laboratorial. No seguimento, o paciente evolui bem, com exames
de controle de VDRL de 1, 2 e 4 meses de, respectivamente, 1:128; 1:32 e 1:8. O
controle radiográfico mostrou a resolução das alterações ósseas em membros.

Discussão e Conclusões

Discussão
Deve-se ressaltar neste relato a forma em que o paciente se apresentou ao
serviço. Com história conflitante, não condizente com o exame físico, presença lesões
em região de fralda, alterações ósseas subsequentes e visitas frequentes e repetidas
ao setor de emergência, fez com que a suspeita de maus tratos fosse aventada. Outro
ponto importante foi o desconhecimento de uma doença de base, a sífilis congênita, que
deve entrar no diagnóstico diferencial de alterações ósseas4. A partir da revisão dos
antecedentes ginecológico e obstétrico materno obteve-se um dado importante
referente a história pregressa do lactente. A SC tem aumentado significativamente na
última década5, em vários paísesl7. É uma doença prevenível, cujo tratamento é eficaz e
com custo-benefício evidentes6. Clinicamente, a sífilis pode atingir múltiplos sistemas,
com sinais precoces e/ou tardios1,2,6. No caso apresentado, o paciente apresentou
anemia, leucocitose, plaquetopenia, lesões de pele, rinite sifilítica e baixo ganho
ponderal.
As alterações ósseas podem surgir a qualquer momento, contudo, fraturas são
menos frequentes. Tais alterações podem levar a pseudoparalisia de Parrot do recémnascido)
1,2,4,6. No caso relatado, fraturas, periostite, alterações metafisárias estavam
presentes e tais achados associados a postura antálgica pode-se concluir que o lactente
também desenvolveu a pseudoparalisia de Parrot.
É fundamental ressaltar a importância do pré-natal e os fatores de riscos
associados. Quando realizado o diagnóstico de sífilis na gestação, o tratamento e
seguimento devem ser instituídos prontamente1,2,6. O presente relato de caso pode ser
considerado um caso atípico e grave, pois a mãe foi tratada adequadamente, assim
como sua parceria sexual ambos comprovados, e com seguimento adequado, da mãe
e da criança, com quedas no nível sérico do VDRL. Esse fato revela que falhas no
tratamento podem ocorrer.

Conclusão
Diante do exposto, é evidente a necessidade dos profissionais de saúde, ficarem
atentos às possíveis manifestações da SC. Evidencia-se a importância da realização do
pré-natal e acompanhamento pós-natal da criança cuja mãe apresentou sífilis na
gestação, mesmo que o tratamento tenha sido o preconizado, pois falhas podem
ocorrer.

Palavras Chave

criança; cuidado pré natal; sífilis congênita

Arquivos

Área

Perinatologia

Autores

EMANUELA DA ROCHA CARVALHO, GONÇALO JUNIOR PEREIRA MARTINS